Até recentemente, havia apenas duas opções: uma operadora nacional (ou talvez até internacional) ou uma regional, dependendo dos recursos administrativos e da capacidade de investimento do fundador. Todas essas operadoras competiam por espectro, construíam estações-base (quanto mais, melhor) e vendiam minutos e megabytes às mesmas pessoas. Grandes investimentos, longos prazos de construção e um conjunto muito limitado de fabricantes de equipamentos de telecom. Havia concorrência, mas entrar nesse mercado era extremamente difícil. Essa é a imagem que lembramos. O que poderia dar errado?
Hoje, milhares de novas operadoras surgiram em todo o mundo, construídas com uma lógica de negócios totalmente diferente. Por exemplo:
- Grandes bancos e varejistas estão criando ecossistemas em torno de seus clientes, coletando big data sobre suas preferências.
- Provedores de internet querem aproveitar sua infraestrutura para oferecer serviços móveis agrupados aos assinantes.
- Milhões de migrantes precisam de atendimento em seu idioma nativo e conectividade acessível para seus países de origem.
- Mesmo em uma mina remota no meio da tundra, a conectividade é necessária.
- Milhares de robôs em diferentes locais precisam ser gerenciados…
Implementação rápida e infraestrutura flexível com investimentos modestos para resolver uma ampla gama de casos de uso — essa é a realidade das telecomunicações modernas. Como isso se tornou possível?
Economia Compartilhada e MVNO
Acontece que não é mais necessário obter espectro nem construir suas próprias estações-base. Também não é obrigatório comprar um núcleo de rede (EPC) pelo preço de uma ilha do Caribe. Qualquer infraestrutura pode ser alugada. Os únicos requisitos são ter um modelo de negócios forte e saber vender conectividade aos assinantes sob sua própria marca. Esse modelo é chamado de operador virtual (MVNO). Dessa forma, o conceito moderno de “economia compartilhada” chegou às telecomunicações: centenas de operadoras podem operar em uma única rede e infraestrutura.
Você pode experimentar ideias de negócios ousadas e construir gradualmente as peças necessárias da infraestrutura à medida que seu negócio cresce. Para começar, um investimento de apenas alguns milhares de dólares em marketing (como revendedor ou MVNO leve) é suficiente, enquanto um Mobile Virtual Network Enabler (MVNE) pode ajudar com a tecnologia e o lançamento. A escolha de um MVNE também deve depender das suas necessidades específicas e do custo de “entrada”.
E se a ideia der certo e alcançar uma grande cobertura, você pode passar para um MVNO completo — ou até mesmo planejar construir a infraestrutura de um novo MNO.
Virtualização da Infraestrutura
Mesmo um operador iniciante não pode ficar sem uma base: data centers com servidores onde seus sistemas de informação funcionam. E nesse mundo “conservador e dependente de hardware”, há alguns hacks “cloud” interessantes:
- Os servidores não precisam ser comprados — podem ser alugados, reduzindo a carga no seu TI e transformando CAPEX em OPEX.
- Telco Clouds especializadas com NFV (virtualização de funções de rede) e SDN (redes definidas por software) estão sendo criadas especificamente para telecom.
- Hyperscalers em marketplaces fornecem infraestrutura pronta para operadoras ou sistemas de informação individuais, exigindo apenas pequenas configurações. Serviços assim são oferecidos por HP, AWS, Azure e outros.
Essas novas tecnologias permitem economizar significativamente em hardware durante o crescimento e evitar riscos de ficar preso a um único fornecedor.
Sistemas Proprietários vs. “Software de Telecom Independente”
Para um MVNO completo, você precisa selecionar um conjunto de sistemas de informação — do EPC à cobrança. O surgimento de centenas e milhares de novos operadores mudou a abordagem de criação desses sistemas. A era dos sistemas proprietários (PAKs) com exigências astronômicas de padronização, escalabilidade e tolerância a falhas de fornecedores consolidados está cedendo lugar a novos fornecedores e até entusiastas de open-source.
“Montar uma operadora móvel GSM ou LTE em cima de uma mesa usando apenas um notebook e uma placa SDR barata?” Impensável há 10 anos, totalmente possível em 2026 — há inúmeros artigos documentando experiências reais. Tal “operadora” baseada em software open-source pode lidar com comunicação por voz e fornecer internet em casa ou no escritório. Várias plataformas já existem, estão se desenvolvendo ativamente e podem ser usadas tanto para fins dos desenvolvedores quanto para resolver problemas reais de pequenas operadoras. Exemplos notáveis incluem Magma Core, Open5GS, Free5GS e outros. Claro, open-source exige configuração adequada e nem sempre pode ser usado comercialmente, mas seu potencial é inegável.
Então, o que devem fazer centenas de operadores em crescimento que não podem pagar pelos sistemas proprietários “premium” dos gigantes de telecom, mas já superaram soluções open-source? Nos últimos anos, surgiram “novos” fornecedores para eles, operando como ISVs (Independent Software Vendors) e fornecendo toda a gama de softwares necessários para lançar redes LTE/5G. Bons exemplos incluem IPLOOK e VAS Experts.
RAN LTE, RAN 5G!
Então, nossa operadora cresceu o suficiente para considerar adquirir estações-base (Radio Access Network – RAN). Em 2026, todos ainda estão construindo redes LTE, mas há planos ativos para lançar 5G e 5G SA. Como a RAN exige esforço e investimento enormes, vários fatores tecnológicos devem ser considerados:
- A cobertura e velocidades de WiFi estão aumentando nas cidades. No trabalho, em casa e na maioria dos locais públicos, os assinantes usam WiFi para dados e voz via WiFi Calling.
- Muitos smartphones modernos já suportam conectividade via satélite. Por enquanto, limitado a SMS, mas chamadas de voz e internet devem chegar em 2 a 5 anos. E quem sabe — seu operador lançará 5G SA antes da conectividade completa via satélite de alguém como Elon Musk?
- eSIM e apps de mensagens. Os assinantes estão cada vez menos vinculados ao seu operador e podem trocar em um minuto sem ir a uma loja para um novo chip. O número de telefone torna-se menos importante que o apelido no mensageiro.
Mas construir uma rede não é suficiente — não esqueçamos a “parte oculta do iceberg”: aquisição de espectro, obtenção de numeração, licenciamento e certificações. O operador também arca com a manutenção de diversos sistemas governamentais. Quanto mais sistemas próprios um operador tiver, maior a carga regulatória do Estado.
De Volta ao Negócio
Nossa breve revisão das tecnologias para operadoras móveis permite tirar algumas conclusões:
- Lançar uma nova operadora em 2026 tornou-se relativamente simples do ponto de vista tecnológico. Por isso, dezenas de MVNOs estão surgindo, algumas das quais encontrarão nichos de negócio bem-sucedidos na interseção de telecom e outras indústrias (bancos, varejo, IoT etc.). Ideias de negócio impulsionam as telecomunicações, enquanto os assinantes se beneficiam de conectividade de melhor qualidade e mais barata por meio de produtos complementares.
- Uma grande variedade de modelos de negócios está sendo aplicada, com receitas diretas e indiretas. Bancos e varejistas lucram fechando seus ecossistemas e acumulando big data dos clientes, operadores de banda larga oferecem serviços convergentes há muito esperados e retêm assinantes, e planos corporativos de nicho podem ser bastante lucrativos.
- É improvável que novos operadores host surjam em um futuro próximo. A barreira de entrada continua muito alta, dado o contínuo avanço das gerações de tecnologia de rede e a ameaça de inovações disruptivas.
- Embora não abordado em nossa revisão, a pressão regulatória na indústria está aumentando em geral. Em países onde o equilíbrio regulatório não é mantido, o crescimento pode desacelerar e a monopolização do mercado pode ocorrer, em detrimento dos assinantes.