QoS hierárquico no PCEF: como gerenciar as prioridades dos serviços

October 7, 2026
Mobile Networks
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QoS hierárquico no PCEF: como gerenciar as prioridades dos serviços
O assinante está baixando um torrent e, ao mesmo tempo, fazendo uma ligação por um aplicativo de mensagens, mas a voz da outra pessoa fica cortando e, depois, a chamada cai. Ele abre o YouTube, e o vídeo trava o tempo todo carregando. É claro que o assinante conclui que o sinal da operadora é ruim, embora o canal de rádio e a cobertura não tenham nada a ver com isso: toda a banda disponível do plano foi consumida pelo próprio torrent.

A operadora enfrenta um problema semelhante na escala de toda a rede. Em caso de congestionamento nos horários de pico ou em grandes eventos, o núcleo envia perfis atualizados com banda reduzida, diminuindo a velocidade de todos os assinantes de uma só vez. Todos os serviços passam a disputar indistintamente o recurso restante. Vídeos e chamadas, pelos quais o assinante avalia a qualidade da rede, são os primeiros a se degradar, e é difícil para a operadora redistribuir rapidamente a banda entre os serviços.

O problema não está em falhas de equipamento nem nas configurações de uma rede específica. O padrão 3GPP (3rd Generation Partnership Project) descreve mecanismos de limitação de banda por assinante e por serviço, mas não define qual serviço recebe a banda primeiro quando ela não é suficiente para todos. Neste artigo, vamos ver onde está essa lacuna do padrão e como o PCEF da VAS Experts resolve esse problema.

Há um teto, mas não há regras

Para entender de onde vem essa lacuna, é preciso mergulhar na especificação 3GPP TS 23.203 “Policy and charging control architecture” (arquitetura de controle de políticas e tarifação).

A arquitetura de QoS no 3GPP é construída em torno de portadoras: bearers no LTE e QoS Flows no 5G. A portadora é um canal lógico entre o dispositivo do assinante e o gateway de pacotes, com seu próprio conjunto de parâmetros de qualidade.

Dedicated Bearer

Se um fluxo de dados precisa de parâmetros de serviço específicos (taxa garantida, latência aceitável e taxa de perda de pacotes) ou de determinada prioridade, cria-se para ele uma portadora separada (Dedicated Bearer), com seu próprio perfil de QoS (QCI/5QI, ARP).

Pelo padrão, também é possível definir a prioridade por meio do ARP (Allocation and Retention Priority), mas essa é a prioridade da portadora, e não de um serviço individual. Com o SDF (service definition function), os serviços são distribuídos entre portadoras com QCI e ARP definidos. Quando faltam recursos de rádio, uma portadora com ARP baixo não será criada, e uma já existente pode ser removida por completo. Ou seja, a prioridade existe na portadora, mas afeta apenas a criação ou a remoção da portadora inteira, com todos os serviços que estão nela, e não permite distribuir a banda de forma flexível entre os serviços.

Default Bearer

Todo o tráfego dos serviços para os quais não foi criado um canal dedicado (web, mensageiros, YouTube, torrents, atualizações em segundo plano) passa pelo canal básico, a portadora padrão (Default Bearer). Ela é sempre uma portadora non-GBR (Non-Guaranteed Bit Rate) e normalmente recebe a classe de baixa prioridade QCI 9. O tráfego dessa classe é tratado no modo best effort, e sua entrega não é garantida. Para todo o tráfego non-GBR, o padrão prevê um parâmetro comum: o APN-AMBR.

APN-AMBR é o teto agregado de velocidade para todo o tráfego non-GBR do assinante dentro de um APN.

De acordo com a especificação 3GPP, a função do PCEF (Policy and Charging Enforcement Function) é garantir que a velocidade total de todos os fluxos de dados de serviço (SDF) non-GBR dentro de um ponto de acesso à rede (APN) não ultrapasse esse teto. O padrão não descreve como distribuir a banda entre fluxos concorrentes quando a demanda total deles é maior que o teto. Por isso, nas interfaces pelas quais o servidor de políticas (PCRF) envia as regras ao PCEF (por exemplo, Gx pelo protocolo Diameter), não há atributos (AVP) que permitam transmitir essa distribuição.

PCRF (Policy and Charging Rules Function) é o nó que toma as decisões sobre políticas de QoS e tarifação e as envia ao PCEF na forma de regras.

Imagine que o plano do assinante seja de 50 Mbps, enquanto um torrent ou a atualização de um jogo pode ocupar até 100 Mbps, de modo que o canal fica totalmente saturado. Os pacotes do mensageiro passam pelo mesmo policer que o torrent. Não há regras de balanceamento, então o policer corta o tráfego sem distinguir os serviços. Assim, quase toda a banda fica com quem gera mais tráfego, que, no nosso caso, é o torrent.

O padrão 3GPP regulamenta rigorosamente as interfaces entre os nós, mas deixa intencionalmente a critério dos fabricantes de equipamentos a lógica de agendamento (scheduling) e a concorrência do tráfego dentro de um mesmo APN. Como resultado, o padrão não tem um mecanismo de distribuição de banda entre serviços por prioridade.

QoS hierárquico no PCEF da VAS Experts

Na VAS Experts, esse problema é resolvido com QoS hierárquico (HQoS) no PCEF com perfis locais. A banda do assinante não é ampliada, e sim distribuída entre os serviços por prioridade. Os tipos de tráfego prioritários, como voz e web, recebem a banda primeiro, enquanto P2P e downloads em segundo plano usam o restante.

Dois níveis de policing

O nível superior da hierarquia é a classe raiz HTB (root), ou seja, a banda total do assinante. Ela é definida no perfil de policing (plano tarifário). Aqui entra o valor do APN-AMBR (ou a velocidade do plano de internet residencial), por exemplo, 50 Mbps. No total, o assinante não conseguirá ultrapassar esse teto.

No segundo nível (leaf classes) ficam oito classes, de class0 a class7. Por padrão, a class0 tem a prioridade mais alta, e a class7, a mais baixa. O mecanismo de DPI baseado em assinaturas reconhece o protocolo ou o destino do tráfego (YouTube, BitTorrent, Telegram) e atribui o fluxo à classe correspondente. A distribuição entre as classes é definida por uma marcação global por protocolos e destinos ou por uma marcação individual por protocolos para um assinante específico. As classes são vinculadas aos grupos de tarifação (rating groups) por meio de uma tabela de correspondência.

Policing levels
Figura 1 – Níveis de policiamento

Como a banda é dividida entre as classes

O administrador pode escolher entre dois mecanismos de policing.

O mecanismo principal é o HTB (Hierarchical Token Bucket), que implementa o QoS hierárquico. Quando um novo valor de APN-AMBR chega do PCRF, o sistema o transfere dinamicamente para a classe raiz e distribui essa banda entre as classes. Para cada uma das oito classes, define-se uma velocidade garantida (rate) e uma máxima (ceil).

O que isso traz: o serviço prioritário recebe sua banda assim que seu tráfego aparece, enquanto o de baixa prioridade usa tudo o que sobra. Quando não há tráfego de alta prioridade, o de baixa prioridade pode usar toda a velocidade disponível.

Exemplo de distribuição da banda por classes para um plano de 50 Mbps:
  # Tráfego de entrada (para o assinante), plano de 50 Mbps
   htb_inbound_root=rate 50mbit
   # class0 — chamadas: 5 Mbps garantidos
   htb_inbound_class0=rate 5mbit ceil 50mbit
   # class1 — vídeo: 20 Mbps garantidos
   htb_inbound_class1=rate 20mbit ceil 50mbit
   htb_inbound_class2=rate 8bit ceil 50mbit
   htb_inbound_class3=rate 8bit ceil 50mbit
   htb_inbound_class4=rate 8bit ceil 50mbit
   htb_inbound_class5=rate 8bit ceil 50mbit
   htb_inbound_class6=rate 8bit ceil 50mbit
   # class7 — torrents: 1 Mbps garantido, mas pode ocupar todo o canal quando ele está livre
   htb_inbound_class7=rate 1mbit ceil 50mbit

O segundo é o TBF (Token Bucket Filter), um policer sem hierarquia. Ele limita cada classe de forma independente: a classe recebe um teto fixo (rate) e não passa dele, mesmo que o restante da banda esteja ocioso. Classes sem limite definido não são restringidas. O TBF não tem um teto geral.

O que isso traz: limitação rígida e previsível ou bloqueio de uma classe de tráfego específica.

Exemplo de limitação rígida de torrents a 3 Mbps:

  tbf_inbound_class7=rate 3mbit
  tbf_class7=rate 3mbit
A banda é destinada primeiro aos serviços que definem a experiência do usuário: transmissões contínuas, chamadas de vídeo sem quedas e vídeo fluido. É justamente essa experiência que gera fidelidade à operadora. A operadora escolhe o conjunto final de tipos de tráfego prioritários de acordo com seu modelo de negócio.

O que isso traz para assinantes e operadoras

Agora o assinante pode conversar tranquilamente pelo mensageiro e baixar um arquivo grande, porque o torrent vai para a class7, com a prioridade mais baixa, e usa todos os 50 Mbps enquanto os outros serviços não precisam do canal. Assim que o assinante inicia uma chamada ou abre o YouTube, esse tráfego entra na class0 ou class1, e o agendador HTB imediatamente tira banda do torrent em favor do serviço prioritário. A chamada não cai mais, o vídeo roda sem pausas e o torrent continua baixando, só que mais devagar.

A velocidade do plano não mudou. Mudou apenas a distribuição dela entre os serviços.

Além disso, a operadora extrai a máxima qualidade dos recursos que já tem. Mesmo que, em caso de congestionamento, o núcleo reduza o APN-AMBR para 7–10 Mbps, as prioridades dentro do limite são mantidas. A banda reduzida vai primeiro para vídeos e chamadas, por isso o vídeo roda sem rebuffering e as chamadas no mensageiro MAX continuam em Full HD.

Menos trabalho manual para a operadora

Sem prioridades, os rating groups precisam ser balanceados manualmente: ampliar um para que outro não fique estrangulado e ter em mente o volume total de tráfego para que tudo funcione em conjunto.

Com o HQoS, a operadora atribui uma classe de prioridade ao serviço uma única vez. A operadora define as classes e sua ordem de acordo com o modelo de negócio e com os serviços que mais influenciam a experiência do usuário. O perfil de policing é criado uma vez e atribuído aos assinantes. A partir daí, a distribuição da banda é feita automaticamente em cada sessão de assinante, independentemente de como mudem a carga da rede e a banda atribuída ao assinante. As classes não utilizadas podem ser ativadas depois: basta alterar a marcação no DPI, sem precisar mudar o perfil.

Se, na sua rede, os assinantes reclamam de chamadas que caem e vídeos que travam mesmo com o canal de rádio funcionando bem, e em caso de congestionamento você precisa restringir a banda de todos sem distinção, vale a pena ver como o HQoS no Stingray PCEF se comporta com o seu tráfego. Os especialistas da VAS Experts vão ajudar a distribuir os serviços em classes de prioridade de acordo com o seu modelo de negócio e os seus planos. Fale com a gente e vamos conversar sobre por onde começar.