Ataque SYN Flood: Divisão de Responsabilidades e Proteção Prática – Operador + Cliente

September 29, 2025
Segurança
Ataque SYN Flood: Divisão de Responsabilidades e Proteção Prática – Operador + Cliente
O SYN Flood continua sendo uma das ferramentas mais populares e perigosas dos cibercriminosos. Seu objetivo é sobrecarregar um servidor com um grande número de solicitações SYN falsas, impedindo que usuários legítimos acessem o recurso. De acordo com a Qrator Labs, em 2023, o SYN Flood representou cerca de 30% de todos os ataques DDoS. A razão é a simplicidade de implementação e a alta eficácia: mesmo uma botnet relativamente fraca pode derrubar um site ou serviço online se ele não estiver preparado.

A discussão sobre a proteção contra SYN Flood não pode ser unilateral. De um lado, está o host com seu kernel Linux, configurações sysctl e iptables; do outro – o backbone do operador, BGP, canais de alta velocidade e centros de scrubbing (limpeza). Considerar o problema apenas “no servidor” ou apenas “na rede” não levará ao nível desejado de resiliência. Neste artigo, manteremos a densidade técnica e, ao mesmo tempo, explicaremos por que e quais ações são de responsabilidade do operador e quais são do administrador do servidor.

Quem é Responsável pela Proteção: Divisão de Responsabilidades e por que uma Abordagem Unilateral não Funciona

Às vezes, parece lógico confiar apenas nas configurações do SO: ativar SYN Cookies, aumentar a fila de espera (backlog), adicionar algumas regras de iptables – e tudo ficará bem. Isso funciona contra ataques pequenos e “locais”. Mas, em cenários reais e modernos, os ataques são medidos em dezenas e centenas de gigabits por segundo. Isso não é mais um problema de um servidor individual, mas um problema do canal e da infraestrutura do operador.

Quando um fluxo de ataque atinge 100+ Gbps, nenhuma configuração de sysctl ou iptables no servidor ajudará – o canal do cliente ficará completamente saturado antes mesmo que os pacotes cheguem ao host. Portanto, a responsabilidade é naturalmente dividida: o operador é responsável pelo backbone, roteamento, prevenção de spoofing (falsificação) e filtragem de tráfego malicioso nas bordas externas da rede; o cliente (administrador do servidor) – pela resiliência local do serviço, configurações corretas da pilha TCP/IP e detecção primária do incidente. A proteção eficaz é uma cadeia de medidas coordenadas: desde a validação de endereços de origem na rede do operador até filtros pontuais no SO do servidor.

O que é um Ataque SYN Flood (Análise Técnica)

O TCP estabelece uma conexão em três etapas: o cliente envia um SYN, o servidor responde com um SYN-ACK, o cliente confirma com um ACK. Em um SYN Flood, o atacante gera uma enorme quantidade de pacotes SYN e não completa o handshake (aperto de mão), fazendo com que o servidor acumule conexões “semiabertas” em filas (SYN backlog) e gaste memória e poder de processamento nelas. Os efeitos negativos se manifestam como um aumento na latência, queda na disponibilidade das portas (normalmente 80/443) e, em casos críticos, falha completa do serviço.

Os ataques variam: diretos (fluxo de IPs reais), com endereços falsificados (IP-spoofing, refletidos/DRDoS), massivos em intervalos e direcionados a serviços específicos. Cenários refletidos são especialmente perigosos: o invasor falsifica o IP de origem da vítima, e milhares/centenas de milhares de servidores terceiros enviam respostas em direção à vítima – no final, a carga é multiplicada e excede as capacidades de um único host.

Por que os Métodos Clássicos no Servidor são às vezes Inúteis (Caso de 100+ Gbps)

Ferramentas locais (SYN Cookies, aumento do tcp_max_syn_backlog, limites de taxa no iptables) são eficazes sob carga moderada, quando o ataque está dentro da capacidade do canal do cliente. Mas quando o ataque excede a largura de banda do canal externo, o tráfego “excedente” é cortado no uplink. Apenas a parte dos pacotes que cabe no canal chega à rede do operador. Esta é precisamente a razão pela qual o papel do operador é crítico: ele deve absorver/filtrar o tráfego malicioso ainda no backbone ou redirecionar o fluxo para um centro de scrubbing (nó especializado na limpeza de tráfego DDoS) – caso contrário, o servidor ficará incomunicável, independentemente do nível de sua configuração local.

Como um Operador Detecta Anomalias e Quais Ferramentas Ele Tem

Fundação: Prevenção de Falsificação de IP (IP Spoofing)

A primeira regra no combate a ataques refletidos é não permitir a saída de pacotes com endereços de origem “estranhos” da rede. A implementação do BCP 38 / RFC 2827 (Validação de Endereço de Origem) consiste em proibir pacotes de saída (egress) cujo IP de origem não pertença à rede do assinante. Na prática: ACLs em roteadores de borda e filtros no perímetro. Isso não é uma panaceia, mas bloqueia o componente mais perigoso do DRDoS (Ataque de Negação de Serviço Distribuído e Refletido).

Monitoramento Baseado em Fluxo (Flow-based monitoring)

A detecção pelo operador é baseada na análise de fluxos: NetFlow, sFlow, IPFIX fornecem uma imagem da proporção SYN/ACK, picos de tráfego para endereços e portas específicos, assim como assimetria de tráfego. Soluções da InMon, SolarWinds ou pipelines personalizados em ELK/ClickHouse permitem realizar análise retrospectiva e detectar anomalias antes que os clientes comecem a reclamar.

Além do monitoramento de fluxo, outras telemetrias são úteis: o BGP Monitoring Protocol (BMP) ajuda a controlar a estabilidade das rotas e notar anomalias nas sessões BGP, o SNMP fornece métricas de carga das interfaces – um aumento abrupto no tráfego de entrada na porta de um cliente é frequentemente um indicador primário de um ataque.

Métodos de Filtragem e Mitigação

O operador utiliza ferramentas de diferentes “calibres” – desde as rápidas e radicais até as precisas e inteligentes:

  • RTBH (Remote Triggered Black Hole) – o método mais simples e rápido: usando BGP, a marcação de um prefixo faz com que TODO o tráfego para ele seja descartado. Isso salva a infraestrutura, mas “mata” completamente o serviço do cliente.
  • BGP Flowspec – uma ferramenta com maior precisão cirúrgica: via Flowspec, regras são distribuídas para criar ACLs nos dispositivos de rede e permitir descartar pacotes TCP específicos (por exemplo, SYN para IP:porta). Vantagem – precisão e impacto mínimo no tráfego legítimo; desvantagem – requer suporte do equipamento e cuidado na criação das regras.
  • Centros de Scrubbing — a “artilharia pesada” no combate ao DDoS. O tráfego do cliente é redirecionado (via BGP ou DNS) para um centro de limpeza, onde sistemas especializados analisam o fluxo, descartam o tráfego malicioso e retornam ao cliente dados já “limpos” através de túneis (GRE ou VxLAN). Esses centros podem ser soluções on-premise integradas (por exemplo, Arbor TMS, Juniper DDoS Guard) ou serviços externos em nuvem. Geralmente, este é um serviço pago adicional, disponível para clientes para os quais o tempo de inatividade é crítico.

Multi-Layered DDoS Protection Architecture

Arquitetura de Proteção DDoS Multi-nível: Como os Operadores a Constroem

Um sistema de proteção eficaz é uma pilha de níveis, onde cada um cobre uma área de responsabilidade específica:

  1. Núcleo da Rede: BCP 38 + monitoramento contínuo de fluxo + mecanismos Flowspec prontos.
  2. Perímetro da Rede: mecanismos RTBH rápidos para casos de emergência.
  3. Nível de Serviço: centros de scrubbing, serviços DDoS para clientes, integração com CDN.
  4. Automatização: a ligação “detector → regra” reduz o TTR (tempo de resposta) de horas para segundos: o monitoramento gera um alerta – o sistema publica automaticamente uma regra Flowspec ou inicia o redirecionamento para o scrubbing.

Caso de Uso: Ações Passo a Passo do Operador ao Detectar um SYN Flood

  1. Detecção. Um sistema baseado em NetFlow/IPFIX detecta um pico de pacotes SYN para o IP do cliente; o SNMP mostra um aumento abrupto no tráfego de entrada na porta do assinante; o BMP sinaliza degradação na sessão BGP.
  2. Verificação. Verificação rápida via CLI: show flow monitor, show ip traffic, análise de pcap se necessário.
  3. Resposta.
    • Opção A (Precisa): Uma regra BGP Flowspec é publicada, descartando o fluxo malicioso e deixando o tráfego legítimo passar.
    • Opção B (Emergencial): Se o ataque ameaçar toda a infraestrutura – o RTBH é aplicado para proteger o backbone; o serviço do cliente fica temporariamente indisponível, mas a rede permanece estável.
    • Opção C (Serviço): É oferecido ao cliente redirecionar o tráfego para um centro de scrubbing para limpeza e retorno de um fluxo seguro.

O ponto chave – automação e experiência: uma cadeia de monitoramento bem configurada + um manual de procedimentos (playbook) reduz ao mínimo o atraso humano e evita a propagação do incidente.

AntiDDoS da VAS Experts – Breve Resumo da Solução

O Stingray AntiDDoS é um exemplo de solução integrada orientada ao operador: o sistema detecta anomalias em tempo real, sabe operar em velocidades de centenas de Gbps, automatiza a publicação de regras Flowspec e também executa as funções de scrubbing, podendo limpar o tráfego se a capacidade do canal do operador for suficiente. Para os operadores, esta é uma forma de reduzir o tempo de reação e oferecer aos clientes um serviço de tráfego “limpo” sem ter que polir manualmente cada situação.

Como o Administrador do Servidor Detecta um Ataque em seu Ambiente

O próprio serviço dá pistas de que algo está errado: sintomas visíveis incluem um aumento no número de conexões no estado SYN_RECV (verificado via netstat -an | grep SYN_RECV), lentidão na resposta das páginas, aumento no consumo de CPU e memória, queda na disponibilidade das portas TCP. Para confirmar, usam-se tcpdump/Wireshark (muitos SYNs sem os ACKs subsequentes) e sistemas de monitoramento (Zabbix, Prometheus, ELK), que permitem visualizar as anomalias e relacioná-las ao tempo.

Importante: a detecção no lado do cliente geralmente fica atrás da telemetria de rede – portanto, o monitoramento do operador geralmente vê o pico primeiro. No entanto, o diagnóstico local é necessário para tomar medidas do lado do servidor e coordenar ações com o provedor.

Métodos de Proteção no Lado do Servidor

Mesmo com a proteção do operador, uma configuração local reforçada reduz a probabilidade de falha em casos limítrofes e ajuda a filtrar corretamente o “ruído” do tráfego útil.

As principais medidas incluem:

  1. Configurações do Kernel Linux (sysctl)
    • Aumentar a fila de espera de conexões para que o servidor possa lidar com mais conexões semiabertas.
    • Reduzir o número de tentativas de retransmissão de SYN-ACK para liberar recursos mais rapidamente.
    • Ativar SYN Cookies para lidar corretamente com conexões semiabertas sem sobrecarregar a memória.
  2. Limitação de Taxa de Conexões (iptables):
    Exemplo de regra que limita o número de SYNs/segundo para a porta 80:
    iptables -A INPUT -p tcp --syn --dport 80 -m limit --limit 10/s --limit-burst 20 -j ACCEPT

    Isso ajuda a amenizar os efeitos de ataques pequenos ou picos, mas é impotente contra fluxos muito grandes que “entopem” o canal completamente.

  3. Filtros de Hardware e de Rede
    Firewalls de Hardware (Juniper, Cisco, Fortinet) podem bloquear eficazmente floods das camadas 3 e 4 (L3-L4) no nível do perímetro do datacenter. Eles possuem aceleradores de hardware para processar um grande número de sessões.
  4. CDN / Hospedagem / Serviços DDoS
    O uso de CDNs na nuvem ou provedores de proteção DDoS (Cloudflare, Selectel, VK Cloud, DDoS-Guard, etc.) permite descartar o tráfego malicioso antes mesmo que ele chegue ao cliente. Para sites, este é frequentemente o caminho mais rápido para restaurar a funcionalidade.
  5. Abordagem Combinada
    A proteção ideal é uma combinação: configurações sysctl adequadas, SYN Cookies, iptables no host + filtragem pelo host/operador e a disponibilidade de uma opção de redirecionamento para um centro de scrubbing. Esta abordagem em várias camadas oferece a melhor chance de sobreviver e restaurar serviços críticos.

Conclusão

O SYN Flood permanece um ataque simples em sua mecânica, mas flexível e perigoso em suas consequências. Se confiar apenas nas configurações do servidor, um ataque sério que “entupa” um canal de centenas de gigabits ainda levará a uma interrupção. Se confiar apenas no operador, sem a devida configuração e monitoramento do servidor, o risco de falsos positivos e perda prolongada de disponibilidade também é alto.

Vence quem constrói uma cadeia de responsabilidades: o operador garante a “limpeza” do backbone (BCP 38, monitoramento de fluxo, Flowspec, centros de scrubbing), automatiza a resposta e oferece serviços de limpeza; o administrador controla o estado do serviço, aplica mitigações locais e coopera prontamente com o operador durante um incidente.

Olhando para o futuro: O aprendizado de máquina e a integração com equipamentos Whitebox permitem tornar a detecção de padrões complexos e a resposta automática ainda mais precisas. Mas mesmo os algoritmos mais avançados só são eficazes onde o processo é automatizado e delimitado: monitoramento, detecção, publicação de regras de mitigação e retorno ao modo normal.